Rock and Roll: uma história social; Paul Friedland

Algumas pessoas podem até achar que é algo um tanto estranho. Concordo que, em um primeiro momento pode até parecer superficial. Mas eu comemoro o Dia internacional do Rock. Não se deixem enganar por uma falsa primeira impressão. O Rock n’ Roll vai muito além de um gênero musical que nasceu no dia 05 de julho de 1952. Esse é considerado o marco zero do rock porque foi nesse dia que ocorreu a gravação do hit “That’s all right” por Elvis Presley. Mas muita história já tinha ocorrido pra chegar até lá. O rock encontra suas raízes no folk, country e blues. É uma música que surgiu de tradições de camponeses e ex-escravos. Aliás, antes de Elvis Presley, muitos músicos já tocavam rock n’ roll. Todos eles, músicos negros. Naquela época não havia direitos civis para todos. Existia nos Estados Unidos uma política de segregação racial, onde negros e brancos frequentavam lugares diferentes, tinham bebedouros diferentes e bancos separados no transporte público. Na área cultural, a segregação se reproduzia. Não exista rádio que tocasse música negra. Em alguns estados isso era proibido por lei.

E no dia 05 de julho de 1952, Elvis Presley, que era um fã confesso da música que vinha dos guetos negros, gravou “That´s all right”, música composta originalmente por Arthur Crudup, um guitarrista negro do Arkansas. Na interpretação, Elvis não deixou de lado o jeito “black” de interpretar a música. E, dias depois, em um ato de completa subversão, Sam Philips, um DJ de Memphis, tocou a música no rádio para milhares de pessoas ouvirem. Mesmo com as pressões, prisões, manifestações populares pelo fechamento da rádio, o DJ Philips continuou executando a música do jovem branquelo que cantava como negro. E mais do que isso, tanto ele, como Elvis, começaram a abrir as portas para que artistas negros pudessem executar suas músicas pelo rádio, mesmo que isso fosse contra todas as normas sociais que imperavam na época.

Tem algo de muito especial nisso. Os dois protagonistas da história, Sam e Elvis, acreditavam em algo muito diferente para as normas da época. Eles acreditavam na convivência de pessoas e culturas diferentes e na fusão delas. E assim foi marcado o início do rock. E isso indica o que o rock representou para a história a partir desse momento.

Note-se que para chegar até a gravação e execução de “That’s all right” ocorreu antes um completo processo histórico, político e cultural. A música foi somente a expressão desse processo. E isso se repete sempre na história do rock. Quando o cenário social e político se altera, o rock se transforma e transgride. E sempre que uma variante do rock começa a se acomodar e representar o estabilishment, o próprio rock se encarrega de transformar as coisas.

Foi assim quando o rock, nos anos 60, já popularizado ao redor do mundo, adquiriu características de músicas melosas que já habitavam o gosto popular e perdeu seu conteúdo crítico e seu poder de transformação. Nesse momento, os Beatles lançaram “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band”, permeado de referências psicodélicas e inicia-se o movimento hippie. O movimento do flower power foi uma pedra no sapato dos governantes norte-americanos que perpetuavam a guerra do Vietnã e embalou as manifestações a favor dos direitos civis. Mas na primeira metade da década de 70, a economia mundial entra em declínio em razão da alta nos preços do petróleo. O desemprego aumenta, o alcance do sistema de proteção social começa a ser limitado e o sonho de um mundo baseado na paz e no amor começa a ser seriamente questionado pela juventude. E nesse momento, o rock se transforma e surge o punk rock que se iniciou na Inglaterra como expressão da insatisfação dos jovens trabalhadores pela situação a qual foram submetidos. Aos poucos esse movimento migrou para os EUA. E como insatisfação é algo sempre presente na vida dos jovens, o punk rock continua bem vivo. No início dos anos 70, a primeira-ministra britânica, Margareth Tatcher, iniciou um movimento de redução do Estado na sociedade, o que significava basicamente corte de gastos sociais. As greves de trabalhadores aumentaram e o movimento punk cresceu. Mas ao mesmo tempo, surgia uma geração de músicos mais eruditos que também estavam um tanto descontentes com a situação. E é daí que surge o movimento chamado New Age of British Heavy Metal, cujo mais destacado representante é o Iron Maiden. Diga-se de passagem, o nome da banda é uma alusão sarcástica à primeira-ministra britânica que, pelo conservadorismo e rigidez, ficou conhecida como dama de ferro. O primeiro trabalho do Iron Maiden coloca a primeira dama sendo pisoteada pelo monstro-mascote da banda. Anos depois, quando o rock havia adquirido ares de rock-farofa, com músicos mais maquiados do que drag queens, como Poison por exemplo ou o Bon Jovi com excesso de laquê, um grupo de jovens de Seattle não se sentia representado por aquela música que falava de baladas, amores perdidos, bebidas e coisas do tipo. Foi assim que surgiu o grunge, caracterizado pelo resgate do punk rock, com músicas barulhentas que expressavam a falta de perspectiva de uma geração e a vontade de romper radicalmente com isso.

É lógico que a história do rock não se resume a isso. Quem quiser conhecê-la de forma bastante ampla e detalhada pode ler o livro de Paul Friedland chamado “Rock and Roll: uma história social”. Só citei alguns exemplos que demonstram uma atitude abstrata e contínua no rock: uma permanente capacidade de crítica e uma intensa energia que serve de combustível para a transformação pessoal e social. Não se trata de um padrão justamente porque o rock quebra padrões. Ninguém pode prever quais os próximos passos do rock. Isso depende de como a sociedade irá se desenvolver. Mas como a transformação social é um processo contínuo, podemos ter certeza de que o rock não morre. Ele se reinventa.

E reinventa a vida dos que estão ao redor. A data de 13 de julho foi declarada o Dia internacional do rock, pela Organização das Nações Unidas, porque nesse dia, no ano de 1985, ocorreu o Live Aid, um festival que reuniu várias bandas do gênero para levantar fundos e chamar a atenção para a situação de pobreza e privação de liberdade que existia – e ainda existe – na África. Isso em uma época em que a maioria das pessoas nem se recordava que o continente existia.

Rock and roll é muito mais que um estilo musical. Se encarado com a profundidade com a qual as manifestações artísticas devem ser apreciadas, o rock é uma atitude, um estilo de vida, onde você busca a vida intensa, o questionamento de tudo aquilo que incomoda e onde você gera energia para a transformação que você e o mundo precisam.

Por isso eu comemoro o dia internacional do rock. Hoje e todos os dias. Afinal, ele é a trilha sonora da minha vida: intensa, inquieta, inconformada e sempre feliz.

E como diz a minha melhor pequena grande amiga, em todos os lugares onde ela vai: eu quero rock and roll!

por Ricardo Cifuentes

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