Pertencer a Valentina

sentada

Valentina já tinha assistido a uns 5 episódios de Dr. Who, 1 episódio de Sherlock Holmes, tomado umas 3 xícaras de chás de melissa adoçadas com mel, contou mais de 2.000 carneirinhos… Mesmo assim, não parava de rolar de um lado para outro da cama. Os lençóis estavam enrolados nas pernas dela, um travesseiro estava no chão enquanto o outro ela tinha usado para cobrir o rosto na esperança que isso resultasse em D O R M I R. O que não aconteceu. Ela continuava inquieta, rolando na cama, abraçando o travesseiro. De tempos em tempos olhava o celular para ver a hora. Valentina não desistia. Em algum minuto ia conseguir dormir, era só abstrair da tempestade de pensamentos que burbulhavam na mente dela. O que estava a cada segundo mais difícil. Valentina lutava arduamente com o eu-lírico dela, que naquela madrugada decidiu questionar Valentina ferrozmente com tudo, absolutamente tudo que tinha passado, acontecido, vivido, enjoado, faltado ou o que seja, na vida de Valentina.

5h17 da matina. Valentina desistiu de lutar, até porque já começava amanhecer. Se até aquela hora ela não conseguiu dormir, nem adiantava ficar na pressão de tentar dormir. Colocou um shorts, tênis, a blusa era a camisola, pois ela tinha deitado com uma camiseta velha; e amarrou o cabelo com um lenço. Pegou o iPod e saiu. Subiu a rua onde morava andando a passos rápidos, o que era habitual de Valentina, sempre andava rápido como se estivera atrasada para alguma coisa, mas neste caso não havia pressa, afinal o objetivo dela era chegar a praça que tinha no final da rua. Uma praça que parecia um mirante e ai sentar e ver o nascer do sol.

Não tinha ninguém na praça, o que era obvio para aquele horário. Valentina sentou em um dos bancos, um que dava bem pro vale que se formava e tinha a vista da cidade. Colocou Fischerspoon para tocar, animação de um bom eletrônico era necessário para aquele momento de insonia e questionamento pessoal.

Valentina, tinha percebido naquela noite que ainda faltavam 3 meses para terminar o ano e ela já queria fechar o “próprio ano fiscal”. Isso mesmo, o ano pessoal dela tinha sido tão bizarro e confuso que queria pular os 3 meses para já entrar no ano novo, como se isso fosse mudar o acontecido.

Ela tentava entender como entrou numa relação bizarra. Como se deixou envolver por um cara que sempre se esquivava, mas sempre lhe dava presentes e se fazia presente de alguma forma que não era fisicamente. Como ela não tinha percebido que todos aqueles meses foi a segunda opção. Que se um cara não conseguia estar com ela e fazer parte da vida dela de maneira normal, ou seja, saindo com ela, participando de eventos com amigos, tinha algo errado. Em especial se ele pedia pra ela não publicar nada em redes sociais ou evitava ao máximo sair junto, porque ele não queria magoar ninguém, existia algo de bem errado naquela relação. Como em 8 meses de relação ela ficou cega para algo tão obvio! Tão obvio, que todos os amigos que sabiam de tal relação, mas nunca tinham visto o cara, diziam pra ela: “Esse cara é um babaca e só você ainda não percebeu que é amante”. Valentina não conseguia parar de pensar que viveu, sem querer e sem saber, o papel de amante. Tudo bem, que já tinha terminado tudo, assim que percebeu qual era a da relação. Pois nunca foi das pessoas que curtia ser amante ou traição. Valentina era fiel até com os cerais do café da manhã. Ter vivido esse papel era algo que tinha machucado o eu-lírico dela. Já estava melhor com a ideia, mas ainda assim, machucava.

Respirou fundo olhando o amanhecer, que estava deveras fantástico! Umas cores únicas. São Paulo parecia suscetível a tudo, parecia uma cidade humana mesmo no meio de tanto concreto. Talvez fossem as cores do céu misturadas com as luzes que começavam a aparecer nos prédios o que davam um tom humano, junto aos pássaros e a calmaria que estava nas ruas.

Pensou que podia ser só o sentimento de uma relação que a machucou. Mas não era só isso. Era um tsunami de emoções perturbadoras. Só que ao mesmo tempo pensava: “Quem não tem problemas, todos tem! Porque estou assim!”

Ela estava numa fase que até profissionalmente já não tinha muito tesão. Embora adorava o que fazia, havia algo que não se encaixava. Como se faltasse algo para completar um espaço criativo dela. Mudava de trabalho, mas não era isso. Começou a questionar o quanto ela se distanciou do que a preenchia de verdade, do porque tinha escolhido estudar o que estudou. Percebeu que a vida a levou para caminhos que ela nem imaginava, não reclamava disso, pois conseguiu desenvolver muitas coisas. Apenas sentia que algo tava fora ou faltando.

Foi quando percebeu que tudo se resumia a: não pertencer. Exato! Ela sentia que aquele ano foi o ano de não pertencer. Ela não pertencia a ela mesma. Tinha medo de ser quem ela sempre foi. De pertencer a ela. Talvez por ter vivido uma relação que nunca pertenceu ao que ela acreditava, ou trabalhar em lugares que não pertenciam a sua realização, ou por ter sido muitas vezes julgadas por ser quem era, por pertencer a ela. Valentina percebeu que em algum momento preferiu não pertencer, quem sabe assim não a julgariam, quem sabe assim pertenceria a alguém. Só que vale a pena pertencer a alguém, sem pertencer a ela mesma? Como viver assim, pertencendo a outros e esquecendo de pertencer a ela? Só ai ela entendeu o motivo do desanimo, da insonia. Precisava, urgente, voltar a pertencer a Valentina.

Momento Trilha Sonora

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Sobre sentir... #illustration #ilustracion #ilustracao #fellings #sentir Hoje é o aniversário da minha "vovis" brasileira, obvio q não de sangue mas de todo coração e alma! A pessoa q qdo finalmente saí do hospital, lá nos idos de 1979, foi me buscar junto com mamis e papis. É sempre teve uma paciência pra me aturar e com certeza posso dizer que a pessoa que tem todas minhas artes. Desenhos datados de 1980 e poucos. E hoje ele merecia que eu desenhasse a Nossa Senhora, Santa q ela é devota. Não manjo do paranawue santas, mas espero que ela goste. Todo meu amor por esta tia/vovis do ❤️ está em cada pincelada. #illustration #ilustracion #ilustracao #nossasenhora #santa Esas locas ganas de deslizar por el piano en un día de lluvia... #illustration #ilustracao #ilustracion #piano #music #umbrella #paragua #guardachuvas #jazz rabiscando e andando... #rough #boceto #rabisco #esboços mi yo-lirico #illustration #ilustracao #ilustracion #mounth #boca Colorindo a vida... ilustra q fiz para a @analianmp (retrato dela) #illustration #ilustracion #ilustracao Corazón #ilustracion #illustration #ilustracao #corazon #coração #heart #fridakahlo #ilustracion #illustration #ilustracao Ya viene ella... #ilustracion #ilustracao #illustration #rabisco #rough #boceto #fridakahlo

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