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Pimpe, El Pirata

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Um dia chuvoso, frio e Pimpe, um pequeno garoto, não podia sair de casa para brincar, não só por causa da chuva, também, estava doente. Porém, um aventureiro, desbravador e com alma de pirata jamais fica sem uma bela aventura.

Pimpe, El Pirata, colocou seu chapéu de capitão e pegou sua luneta para ver o que existia lá fora na tempestade que se via pela janela. Foi então que sua cama se transformou em um barco pirata, o qual navegava pelos mares felpudos do quarto de Pimpe. E o levava a imensidão de um novo mundo que existia através da janela.

Foi então que Pimpe avistou algo, ou alguém? Que seria aquela forma  tão diferente que ele via? Parecia peludo como um cão, fofo como uma bola de lã… Pimpe decidiu ir até o encontro do que avistou, precisava descobrir que era que estava vendo.

Navegou na imensidão do mar felpudo e azul, enfrentando as fortes ondas que a tempestade fazia. A ventania o ajudou, porque fez com que as velas dessem mais velocidade ao barco, mas teve que cuidar muito do seu chapéu de capitão, a forte ventania queria levar o chapéu.

E Pimpe começou a se aproximar da pequena ilha que avistou a coisa … como bom pirata, ele pulou antes do barco e nadou até o encontro da suave terra com cheiro de lençol limpinho. A medida que ia se aproximando sorrateiramente daquela silhueta arredondada e peluda; Pimpe ia descobrindo que além de peluda, tinha mão, mas não via pés…cada vez mais perto, Pimpe olhou e escutou:

– Quem é você? Não me machuque.

– Sou Pimpe, El Pirata. Capitão do barco Catrero. Você quem é? – Pimpe curioso olhava para a coisa peluda, analisando tudo e já pensando em o que iria fazer.

– Sou Bobo, me perdi nessa pequena ilha quando minha nave ficou sem combustível e caí nessa imensidão felpuda azul que é líquida. – A coisa felpuda não era daqui, estava com medo e nem sabia o que era o mar. Então, Pimpe, foi até ele e explicou o que era o mar, os oceanos, os rios e tudo que tinha água e possível de navegar para desvendar mundos e ter aventuras, e explicou que os piratas precisam navegar muito para encontrar tesouros. E então, Pimpe olhou para Bobo e perguntou:

– Bobo, quer ser meu fiel marujo?

– Sim! E vamos desvendar todos os cantos dos mares de todo o universo.

Pimpe, El Pirata, abraçou Bobo. Colocou um lenço na cabeça de seu amigo e o nomeou como o seu fiel Marujo Bobo, o grande. Os dois subiram no grande Catrero e foram mar adentro, mas dormiram

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Mr. Smith, 17h

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Em uma casa antiga, em uma sala de jantar empoeirada cheia de fotos e móveis de madeira, existe um velha cristaleira  com o verniz todo gastado e vidros empoeirados. Nela ficam guardadas todas as velhas porcelanas que o senhorzinho, dono da casa, guarda para lembrar de sua amada.

No fundo desta cristaleira há uma xícara com muitas marcas do tempo: trincos, tinta raspada e a orelha quebrada. Uma xícara especial, seu nome é Smith.

Smith dorme profundamente todos os dias, em seu canto na cristaleira. Mas sempre, sempre, pontualmente acorda ansiosamente às 17h. Hora que o senhorzinho pega Smith com muito cuidado, coloca-o em cima de uma mesinha onde o sol do fim da tarde bate iluminando com carinho aquele momento. Smith sente o calor do sol misturado com o quentinho da água que cai sobre ele e libera um delicioso perfume de chá, Lady Gray.

Ah! O aroma de Lady Gray é o momento especial do senhorzinho e da xícara Smith. Momento que se lembram da Lady, senhorinha que por anos tomou seu chá com Smith e o senhorzinho. Os dois sentem o carinho e o cheiro dela todos os dias, pontualmente as 17h.

Pertencer a Valentina

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Valentina já tinha assistido a uns 5 episódios de Dr. Who, 1 episódio de Sherlock Holmes, tomado umas 3 xícaras de chás de melissa adoçadas com mel, contou mais de 2.000 carneirinhos… Mesmo assim, não parava de rolar de um lado para outro da cama. Os lençóis estavam enrolados nas pernas dela, um travesseiro estava no chão enquanto o outro ela tinha usado para cobrir o rosto na esperança que isso resultasse em D O R M I R. O que não aconteceu. Ela continuava inquieta, rolando na cama, abraçando o travesseiro. De tempos em tempos olhava o celular para ver a hora. Valentina não desistia. Em algum minuto ia conseguir dormir, era só abstrair da tempestade de pensamentos que burbulhavam na mente dela. O que estava a cada segundo mais difícil. Valentina lutava arduamente com o eu-lírico dela, que naquela madrugada decidiu questionar Valentina ferrozmente com tudo, absolutamente tudo que tinha passado, acontecido, vivido, enjoado, faltado ou o que seja, na vida de Valentina.

5h17 da matina. Valentina desistiu de lutar, até porque já começava amanhecer. Se até aquela hora ela não conseguiu dormir, nem adiantava ficar na pressão de tentar dormir. Colocou um shorts, tênis, a blusa era a camisola, pois ela tinha deitado com uma camiseta velha; e amarrou o cabelo com um lenço. Pegou o iPod e saiu. Subiu a rua onde morava andando a passos rápidos, o que era habitual de Valentina, sempre andava rápido como se estivera atrasada para alguma coisa, mas neste caso não havia pressa, afinal o objetivo dela era chegar a praça que tinha no final da rua. Uma praça que parecia um mirante e ai sentar e ver o nascer do sol.

Não tinha ninguém na praça, o que era obvio para aquele horário. Valentina sentou em um dos bancos, um que dava bem pro vale que se formava e tinha a vista da cidade. Colocou Fischerspoon para tocar, animação de um bom eletrônico era necessário para aquele momento de insonia e questionamento pessoal.

Valentina, tinha percebido naquela noite que ainda faltavam 3 meses para terminar o ano e ela já queria fechar o “próprio ano fiscal”. Isso mesmo, o ano pessoal dela tinha sido tão bizarro e confuso que queria pular os 3 meses para já entrar no ano novo, como se isso fosse mudar o acontecido.

Ela tentava entender como entrou numa relação bizarra. Como se deixou envolver por um cara que sempre se esquivava, mas sempre lhe dava presentes e se fazia presente de alguma forma que não era fisicamente. Como ela não tinha percebido que todos aqueles meses foi a segunda opção. Que se um cara não conseguia estar com ela e fazer parte da vida dela de maneira normal, ou seja, saindo com ela, participando de eventos com amigos, tinha algo errado. Em especial se ele pedia pra ela não publicar nada em redes sociais ou evitava ao máximo sair junto, porque ele não queria magoar ninguém, existia algo de bem errado naquela relação. Como em 8 meses de relação ela ficou cega para algo tão obvio! Tão obvio, que todos os amigos que sabiam de tal relação, mas nunca tinham visto o cara, diziam pra ela: “Esse cara é um babaca e só você ainda não percebeu que é amante”. Valentina não conseguia parar de pensar que viveu, sem querer e sem saber, o papel de amante. Tudo bem, que já tinha terminado tudo, assim que percebeu qual era a da relação. Pois nunca foi das pessoas que curtia ser amante ou traição. Valentina era fiel até com os cerais do café da manhã. Ter vivido esse papel era algo que tinha machucado o eu-lírico dela. Já estava melhor com a ideia, mas ainda assim, machucava.

Respirou fundo olhando o amanhecer, que estava deveras fantástico! Umas cores únicas. São Paulo parecia suscetível a tudo, parecia uma cidade humana mesmo no meio de tanto concreto. Talvez fossem as cores do céu misturadas com as luzes que começavam a aparecer nos prédios o que davam um tom humano, junto aos pássaros e a calmaria que estava nas ruas.

Pensou que podia ser só o sentimento de uma relação que a machucou. Mas não era só isso. Era um tsunami de emoções perturbadoras. Só que ao mesmo tempo pensava: “Quem não tem problemas, todos tem! Porque estou assim!”

Ela estava numa fase que até profissionalmente já não tinha muito tesão. Embora adorava o que fazia, havia algo que não se encaixava. Como se faltasse algo para completar um espaço criativo dela. Mudava de trabalho, mas não era isso. Começou a questionar o quanto ela se distanciou do que a preenchia de verdade, do porque tinha escolhido estudar o que estudou. Percebeu que a vida a levou para caminhos que ela nem imaginava, não reclamava disso, pois conseguiu desenvolver muitas coisas. Apenas sentia que algo tava fora ou faltando.

Foi quando percebeu que tudo se resumia a: não pertencer. Exato! Ela sentia que aquele ano foi o ano de não pertencer. Ela não pertencia a ela mesma. Tinha medo de ser quem ela sempre foi. De pertencer a ela. Talvez por ter vivido uma relação que nunca pertenceu ao que ela acreditava, ou trabalhar em lugares que não pertenciam a sua realização, ou por ter sido muitas vezes julgadas por ser quem era, por pertencer a ela. Valentina percebeu que em algum momento preferiu não pertencer, quem sabe assim não a julgariam, quem sabe assim pertenceria a alguém. Só que vale a pena pertencer a alguém, sem pertencer a ela mesma? Como viver assim, pertencendo a outros e esquecendo de pertencer a ela? Só ai ela entendeu o motivo do desanimo, da insonia. Precisava, urgente, voltar a pertencer a Valentina.

Momento Trilha Sonora

Meu Tatá(vô), uma conversa à At Last.

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Como todos os dias, entrei no prédio. O porteiro, William, me chamou pra entregar o condomínio e me disse pra descansar. Subi no elevador, apertei o botão com o número 4. Abri a porta do meu apartamento e como sempre estava tudo escuro. Liguei as luzes, fui deixando as coisas em cima da cama, criando aquele monte de coisas de um lado da cama. Quando fui para cozinha fever água para fazer um chá, passei pelo meu teclado que estava com a partitura de At Last. Meu desafio na prática musical. Uma música que mexe horrores com minha alma. Enquanto a água fervia, decidi sentar e estudar a partitura. E claro, mais uma vez não saí da primeira linha. No meu pensamento só vinha a frase que meu vô, Tatá, me dizia (em espanhol, claro): A música você precisa sentir, deixar a técnica de lado as vezes, e sentir com toda a alma.

Peguei meu chá, desliguei todas as luzes do apartamento, abri a cortina para a lua iluminar, deitei no tapete fofo da sala e coloquei At Last, cantada pela Etta James, para tocar no repeat. Fechei os olhos e deixei a música fazer a parte dela. Mas claro, que milhões de pensamentos pipocavam na minha mente, com tantas mudanças que estavam e estão acontecendo.

– Não tem problema ficar pensando em todas as coisas. Isso é porque a música está entrando em você e deixando os pensamentos virem, assim enxergar as coisas. – Abri meus olhos assustada! Moro sozinha, como alguém falaria comigo. Entre o medo e uma sensação de conforto, vejo meu vô, mi Tatá! Deitado no tapete, escutando e desfrutando a música. – Caro, deixa a vida fluir, deixa a música entrar na tua alma sem medo.

– Tatá, será que é por isso que não consigo sair da primeira linha de At Last? Não estou deixando a música entrar. Ou porque estou com multifoco, são tantos pensamentos que não consigo abstrair e concentrar na música.

Tatá fez aquele clássico sinal de silêncio com o dedo, quando o aproxima da boca. Entendi que era pra prestar atenção. E Etta James cantou:

“I found a dream, that I could speak to
A dream that I can call my own”

– O mais lindo na alma de um artista é não ter o medo de sonhar. Sonha. Sente. Muitas coisas, que você já sonhou, conseguiu criar e concretizar. Depois de tantas vezes que você por ansiedade se desesperou, como agora em tocar At Last, você conseguiu perceber que existia um tempo com um ritmo especial, aceitou e aconteceu.

– Sonhar… Todos dizem isso, que sou sonhadora, romântica e utópica. Só consegui equilibrar isso agora, aos 34 anos. Mesmo assim, não em todos os aspectos da vida. E em um não consegui. Até comecei equilibrada, quando cai no sonho e na ilusão. Na expectativa vazia. Afinal, a ilusão era só minha.

– Caro, mi niña, não é porque uma história dá errado que todas dão. Você já viu como teu sonho alimenta tua criatividade e tem um resultado lindo nas suas criações. Relaxa. Sente o ritmo, a pulsação da música em cada parte da tua alma. Como varia a melodia, assim como a vida. Lembra: tudo vai da percepção que tu tem.

– Do ponto que olho? Que sinto? Da forma que escuto agora Etta cantar?

– Exato! Se quiser sentir Etta cantando com melancolia, você pode. Mas é melancolia que Etta passa com essa voz? Com essa alma que ela canta? É técnica e melancolia que tu vai dedilhar no teclado? É assim que tu está vendo uma história que durou 8 meses, que um dia, mesmo sendo esta  sonhadora, tu viu que não era o que tu queria para vida, que sempre se prometeu não viver um papel de segunda opção?

– Não. Etta canta esta música como uma protagonista. Como uma pessoa que finalmente encontrou algo que completa sua alma, que sonhou e viu que era um sonho real. Que teve medo, mas não ficou parada por um medo. Um ritmo que mistura melodias que em todas as notas tem uma força, mesmo que seja uma pausa.

– É isso! Isso você tem que fazer na música e na vida. Ter a força que cada nota precisa, seja uma colcheia, uma fusa ou mesmo a pausa. A vida e a música são muito parecidas. Não tem como tu fazer em mais ou menos tempo. Cada nota é o tempo que tem que ser, a força que precisa, entra na alma de forma única. Escuta a potencia da voz de Etta acompanhada com a força de cada nota que é de dedilhada no piano.

Ficamos de olhos fechados. Parecia que cada nota, cada palavra que Etta cantava entrava com precisão na alma. Suavemente fui dedilhando no tapeta o que sentia, que claro não tinha nada a ver com a partitura. Era apenas o dedilhado da minha alma com At Last. A música deve ter tocado como umas 20 vezes, a cada vez entrava na alma com mais precisão. Em uma das vezes, eu já cantarolava a melodia e desenhava ela com o dedilhar dos dedos. Senti que meu Tatá cantarolava junto, até que houve uma pausa.

Era At Last, meu chá e eu, na sala. Depois de uma conversa sonhada com meu Tatá, na nossa clássica mistura de música e vida.

Momento Eu-Lírico 1
Aprendi com meu Tatá, que humor é fundamental nesta vida, ele era um sábio. Além de tantas outras coisas que aprendia nas longas conversas que tínhamos no café da manhã, almoço, chá da tarde, janta, regando o jardim nas férias que eu ia para o Chile. Minha alma artista vem daí, demorei pra aceitar essa alma, que com certeza desde que eu era pequena, meu Tatá já sabia que eu tinha. Ele só esqueceu de me ensinar jogar snooker… hehe

Momento Eu-Lírico 2
Me divertia no almoço, quando meu Tatá soube que eu esta aprendendo música, com ele me perguntando do nada escalas…me explicando a técnica musical e depois falando que antes de técnica é sentir. Sem contar que sempre me desejava feliz dia, no dia de Santa Cecília.


¡Filosofia Soleil!

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